Escrito por G às 10h38
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A Turma da Chama
A "Turma da Chama" era uma sociedade informal de jovens poetas que se reuniam todos os sábados à noite em um boteco simpático e ligeiramente sujo, escondido nas entranhas do bairro Azenha. Chegavam por volta das 8 horas e ficavam até a paciência encher, declamando seus poemas uns para os outros; eram versos livres do pudor da ruindade, cheios de gírias e vocábulos semi-desconhecidos, verdadeiros jatos de emoção bruta, entremeados de discussões a respeito de tudo; política, música, economia, sexo, ódio, amor, amizade, os grandes mistérios da vida e os rumos da humanidade. Penetrávamos todas as questões, num misto de superficialidade e ardor juvenil. Estávamos todos na casa dos vinte anos, quando tudo ainda cheira a novidade. Desafiávamos Deus a explicar a bela m.... que o mundo se encontrava, nos levantávamos contra o governo, as multinacionais, a mídia careta, e não ligávamos para a ausência de contrapropostas. Como um de nós tinha fundado o "nem-aísmo", segundo o qual, já que vamos para o cemitério e ainda não foi comprovado o além-túmulo, tudo era válido em sua falta de sentido sobretudo se reunir em um boteco para brincar de pensadores e rebeldes malditos, em meio à fumaça de cigarro e muito álcool.
Os habituais frequentadores do boteco, gente humilde, numa faixa etária superior à nossa, com preocupações bem distintas de jovens universitários, que nos viam como um simpático corpo estranho. Às vezes prestavam atenção nas m.... que a gente falava, com um misto de curiosidade e admiração.
Havia um homem que sempre chegava um pouco depois da gente, quando era possível, sentava perto de nós. Tinha um rosto muito avermelhado e pequenos olhos claros que brilhavam timidamente enquanto procurava nos escutar. Então começava a beber solitário uma dose atrás da outra, o efeito da bebida abrindo um sorriso de dentes amarelados, um sorriso trôpego, desengonçado, envergonhado de si mesmo. Depois levantava e ia embora.
De acordo com nosso espírito zombeteiro, passamos a questionar a masculinidade do coroa, especulando sobre qual de nós era o seu objeto de desejo. Mas, uma noite, enquanto procurávamos achar o caminho seguro entre Deus e a ciência, o homem se dirigiu até nós e pediu um minuto de atenção. Parecia uma criança dirigindo-se a um grupo de adultos. Sentimos que ele fizera um esforço enorme para tomar aquela atitude, e concedemos o tal minuto, mas tio, seja breve, que o cheiro de pinga está de lascar:
- Guris, faz tempo que eu venho cuidando vocês, com todo o respeito, né? Com todo o respeito cuidando, cuidando. Eu... sou um perdedor, um saco de mijo e cocô. Mijo choco. Eu sou aquele que caiu num buraco sem fundo e não quer companhia. Então escutem a voz que vem do fundo do buraco. É rápido.
O homem já tinha capturado completamente a nossa atenção. Éramos sua pequena platéia , estávamos em suas mãos. Ele falou:
- Fujam de um casamento sem amor e um trabalho sem prazer. A maioria do pessoal até aguenta, mas não a gente. Senão...
E fez um gesto com ambas as mãos para si. E, se desse para espremer aquele sorriso sem graça, daria para encher um copo de lágrimas.
E foi embora devagarinho, deixando-nos com saudade do bafo de pinga.
Suas palavras nos atingiram como um tapa. Buscando informações a respeito do homem com o dono do bar ficamos sabendo que ele morava sozinho em uma bela casa de dois pisos ali perto, a maior das redondezas, e frequentava o bar há muito tempo. Era um homem muito reservado, porém uma vez deixou escapar qualquer coisa sobre ter pintado quadros na juventude, tipo "Mona Lisa", sabem?, e sobre uma mulher mais jovem que não valia nada, mas era linda de morrer.
A "Turma da Chama" aguardou pela volta do Tio, mas soubemos que ele escolhera outro dia e horário para beber. De certa forma, ele tinha virado uma figura mítica para nós, inspirando-nos longos debates sobre a felicidade, sua busca, natureza, peso, cor, altura e pelo menos dois poemas: "A cadela mais linda do mundo" e "A voz no fundo do buraco", este último de minha autoria. Todos concordaram que "A voz no fundo do buraco" tinha algum valor literário. Então, após um árduo processo de lapidação, supervisionado por um competente professor de literatura, consegui publicá-lo em uma antologia de poetas amadores.
E, porque imaginamos que aquele seria o destino de Arturo Bandini, de John Fante, frustrado, bebum e com o pensamento voltado para Camila Lopez, resolvemos chamar nosso amigo de Tio Arturo, membro honorário da "Turma da Chama".
Nos dias de hoje, em que a "Turma do Chama" é só uma lembrança que arde gostosa e possivelmente o Tio Arturo já encontrou o descanso, eu mantenho uma coluna política de orientação esquerdista em um jornal de segunda linha e estou casado com uma baixinha branquela de pernas torneadas e temperamento explosivo. Ganho o bastante para comprar uns livros e Cd´s sem ter que abater da comida, e não ligo para a baixinha branquela que às vezes me chama de perdedor porque só troco de carro a cada cinco anos.
Sei que logo depois vai tentar se redimir dessas bobagens com um baby-doll preto e o meu prato de comida predileto. Sou feliz e não frequento botecos ligeiramente sujos. E tudo porque a voz no fundo do buraco até agora ressoa em meus ouvidos.
G
Escrito por G às 10h37
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Recordando Vanusa Spindler
De manhã cedo, antes de ir para a escola, o garoto sempre tomava café com seu pai, ouvindo o mesmo programa de rádio em que três senhores discutiam assuntos variados que raramente o interessavam. Mas, naquele dia eles receberam a mais nova capa da Playboy, cobrindo a moça de gentilezas e perguntas leves. Um deles até declamou-lhe um poema. Outro fez um comentário que impressionou o garoto: "Tem muita gente que fica hipnotizada na banca de revista por tua causa". Ele pergunta ao seu pai o que mulher terá de tão especial. A resposta é seca e racional: "Eles são um bando de velhos babando por uma guria bonita e gostosa que é igual a tantas outras gurias bonitas e gostosas. Só isso." O garoto fingiu concordar, pois alguma coisa lhe dizia que os atributos de Vanusa Spindler iam muito além daquela explicação mal humorada. VANUSA SPINDLER, até o nome era gostoso de dizer.
Depois da escola, o garoto parou na banca de revistas mais próxima. E sofreu o primeiro grande abalo de sua recém inaugurada adolescência. A loura muito bronzeada, emergindo de um macacão de piloto de Fórmula 1 com seu imenso par de seios e sorriso infantil, pareceu agarrá-lo pela garganta. Aqueles tios do rádio estavam cobertos de razão. O garoto investiu boa parte de sua mesada na revista. E, sozinho no seu quarto, ouvindo repetidas vezes "O Astronauta de Mármore, do Nenhum de Nós, admirou suas fotos uma a uma, lentamente, num ritual de degustação permeado de melancolia. A partir daquele momento, Vanusa Spindler tornou-se para ele uma entidade quase mística, o sonho maior. A coisa ia muito além do mero fascínio que uma loirona generosa provoca num guri de quinze anos. Era uma espécie de paixão fria, sem arroubos, em que o tesão era só mais um entre outros componentes. Até mesmo Esteio, uma pequena cidade nos arredores de Porto Alegre, terra natal de Vanusa Spindler, ganhou contornos míticos para o garoto. Era a "Cidade Spindler".
Meses depois, após submeter sua paixão platônica ao crivo da razão, decidiu que ela não tinha cabimento: Numa tarde ensolarada, nos fundos de casa, escutando "O Astronauta de Mármore" num radinho gravador, queimou a revista Playboy em algo chamado "Ritual Libertador". O garoto acreditava realizar um ato de pura poesia. Complicadinho, o garoto. Ele se tornou este homem um pouco menos complicado. E Vanusa Spindler continua carinhosamente guardada em sua memória, num lugar seco e arejado, enfeitado com flores. Espero que ela tenha aproveitado ao máximo seus dias de glória, multiplicado o capital da sua beleza e, sobretudo espero vê-la em algum programa de TV do tipo "onde andará fulano?". O garotinho dentro de mim ficaria comovido.
G
Escrito por G às 10h36
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