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Simplesmente Amor
Era quase um ritual sagrado para aqueles três amigos reunir-se uma vez por semana, ao fim de tarde, no bar do Boni, para refrescar-se na companhia um do outro. A grande estrela do local era Priscila, a "Miss Garçonete", cuja beleza ainda seria descoberta pela mídia. Ela estava adorável naquela sexta-feira, cabelos soltos, pintura discreta, seios volumosos se derramando pelo decote. Depois que ela trouxe uma generosa porção de batatas-fritas, Virgílio comentou:
- Fico imaginando quantos corações essa mulher não partiu, quantas loucuras de amor não inspirou.
- Fico imaginando quanta gente ela não ferrou, isso sim. Ela sabe que é bonita desde que começou a andar – retrucou Juliano, que gostava do corpo dela na mesma medida que não ia com a sua cara.
- Seria impossível essa guria não saber que é linda – falou baixinho Marcelo, olhando para a rua.
Então uma idéia lhe ocorreu. Contariam a mais bela história de amor que conhecessem e da qual não haviam tomado parte, para evitar comparações. Juliano aprovara a idéia, mas fez questão de ressaltar que era coisa de veado. Virgílio, que embora cultivasse o estilo "boêmio intelectual", no fundo sonhava com uma igreja decorada em azul e branco, fez questão de começar:
- Eu tenho um conhecido por aí, o Machado, que é um artista plástico dos bons, um carinha preto e pobre que sei lá como estuda na Ulbra. Foi lá que ele conheceu a Beatriz, um caso meio raro de filhinha de papai bacana, uma loira até bonita.
Juliano sentiu-se na obrigação de interrompê-lo.
- Ah não cara, lá vem clichê. Garoto preto e pobre se apaixona por menina loira e rica. É a velha história de Cirilo e Maria Joaquina. No mínimo eles tiveram que enfrentar os pais dela, os amigos dela, os vizinhos dela, para viver seu amor.
Marcelo quase cuspiu a cerveja de tanto rir. Virgílio fingiu-se aborrecido, exigiu respeito e continuou:
- É aí que está a beleza desse conto romântico, velho. O Machado não um besta, sabe muito bem em que tipo de mundo ele vive, portanto tinha medo de que essa merda rolasse. Só que a família dela o acolheu com um filho! Ele se sentia melhor no meio daquela alemoada do que entre seus próprios familiares, que sempre o trataram como um bicho estranho, metido a artista. E tem um detalhe: a guria sofre de depressão, já esteve até internada numa clínica. Ela demorou um bom tempo para lhe revelar a doença, com medo de ser abandonada. E eu poderia começar um dos meus poemas com a resposta dele: "Eu seria doente se largasse uma pessoa que nem tu". A mãe dela foi de uma sabedoria milenar quando disse que o Machado era o melhor remédio para a filha dela. Pessoal, eles estão até noivos! Até o Juliano tem que admitir que uma dessas histórias faz o mundo parecer melhor.
- Não é uma história mirabolante, mas tem um conteúdo otimista muito bacana. O Cirilo se deu bem. Só que a minha é mais legal – disse Juliano. O Marcelo que gosta desse negócio de magia, espiritualismo, vai se amarrar. Eu tenho um velho amigo que, no começo deste ano, começou a flertar com uma guria pela internet, essa besteira de relacionamento virtual. O codinome dela era "Espaçosa", e seduziu o cara porque era divertida, inteligente e desbocada. Fazia mistério sobre sua aparência, pois dizia que o espaço virtual não deveria ser nenhum açougue. Mas dava a certeza de que não assustava ninguém. Os dois chegaram a amanhecer batendo papo no computador. Aí o cara teve a certeza absoluta que eles precisavam se conhecer melhor. Marcaram um encontro e, quando ele botou os olhos nela, véio, levou um dos maiores choques de sua vida. – Juliano fez de propósito uma pausa dramática – Meus caros, se eu acreditasse em Deus diria que é coisa dele. A "Espaçosa" foi o primeiro amor dele no colegial; era uma grande mulher do terceiro ano, uma pré-acadêmica que desprezava os gurizinhos do primeiro ano, onde ele penava com sua paixão não correspondida. Seu nome era Andréia. Usava o codinome "Espaçosa" porque era um mulherão de 1,80m, meio acima do peso, e com um rosto perfeito. Meu, até casada ela já foi. O cara por pouco não chorou.
Virgílio e Marcelo ficaram realmente impressionados. Juliano degustou.
- Puxa, isso é como ter um sonho bom, e acordar num sonho melhor ainda – comentou Virgílio. E eles estão bem?
- Estão bem, considerando que ela adora mandar, e ele não importa em ser mandado. Já ouvi até dizer que ela se aproveita do tamanho para cascudear ele. De qualquer forma, é uma bela história. Agora manda a tua Marcelo.
Ele riu daquela maneira própria dos tímidos, como se ao mesmo tempo estivesse pedindo desculpas. Deu um pigarro, tomou um gole de cerveja e começou:
- Eu ia contar essa para vocês , ainda que outro assunto estivesse em pauta. No Domingo passado, um cara foi assistir um filme na Casa de Cultura. Quando estava chegando à bilheteria, uma garota bonita, com uma expressão de ódio, passou correndo por ele. Logo entendeu o porquê. Há cinco minutos atrás tinham vendido o último ingresso para a bosta do filme. O cara saiu de lá puto da cara, pois não havia outro horário no mesmo dia. O cara então viu a guria olhando o cartaz do filme, como se aquilo a consolasse. O cara chegou perto dela e perguntou: "Tu também se azarou com o filme?" Ela respondeu: ""Pior. E o brabo é que eu vim de Sapucaia pra ver essa droga. Agora fiquei sem opção". E o cara respondeu: "Eu tenho uma opção. Sai comigo pra tomar uma cerveja". E a guria foi, cara. Ela foi.
Então Marcelo ergueu os punhos no ar, como se estivesse ganho na loteria, ou passado no vestibular, ou conseguido o primeiro emprego, qualquer coisa maravilhosa capaz de virar pelo avesso a vida de alguém:
- Galera, o tal "cara" sou eu! EU, PORRA! Ficamos juntos até de noitinha. Ela voltou no dia seguinte, fomos para um motel legal, porque ela ainda por cima tem grana, e já estamos namorando!
Virgílio e Juliano fizeram uns instante de silêncio, respeitoso e reverente. Parecia-lhes quase milagroso o modo como o tímido Marcelo derrubara suas barreiras interiores. Eles sabiam o quanto ele penava no imenso deserto de sua vida amorosa. Seu rompante de ousadia foi digno de um Casanova. E, quando Marcelo o atribuiu ao seu guia espiritual, Juliano bateu na mesa e ergueu a voz:
- Guia espiritual uma ova, o mérito é só teu. És bom, velho, és bom... Um campeão! Agora tu vai esquecer de vez essa peituda abobadinha aqui do bar.
Uma conexão misteriosa uniu os três num coro pavoroso, quando Marcelo entoou:
Por isso uma força Me leva a cantar Por isso essa voz Estranha no ar
E a garota bonita sorriu complacente, achando que o coro erguia para ela.
G
Escrito por G às 03h35
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