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BRASIL, Sul, PORTO ALEGRE, Homem, de 26 a 35 anos



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A Méri

A Méri chegou no boteco do Miúdo vinda de qualquer lugar, tripulando um Chevette azul maltratado que nem o seu rosto bonito. Sentou-se quase escondida, pediu uma cerveja, depois outra, depois outra, e à medida que esvaziava as garrafas preenchia um caderninho ensebado.

Chegava sempre no fim da tarde, e levou uma semana para falar com alguém. Era o alvo das atenções por causa da altura, dos braços longos e fortes, recortados por veias azuis, e só não a chamaram de "traveco" por causa do rosto bonito demais.

Uma noite dirigiu-se à mesa de sinuca e desafiou os caras: daria cinco reais a quem a vencesse desobrigando-os de abrir a carteira em caso contrário. A ela só importava a glória. Venceu a todos sem muito esforço, um deles fez questão de oferecer-lhe uma carteira de cigarros, na boa, pois tivera de graça uma aula do seu passatempo preferido. A Méri aceitou o que considerava um troféu porque leu a pureza do seu olhar. Resmungou um "valeu" sem sorrir, a Méri pouco sorria, mas ao fazê-lo, era como se uma lâmpada acendesse de repente naquele espaço obscuro.

A partir de então a Méri se enturmou com o pessoal; a Méri bebia, fumava, jogava dominó, baralho, sinuca, dizia palavrões com finesse e de vez em quando até dava uma risada. A Méri detestava qualquer pergunta sobre o seu passado, fazia uma cara feia e endurecia o olhar, respondendo: "Sim, seu delegado", "Não, seu delegado", "Pode ser, dotô delegado". Talvez fosse a intenção dela criar uma aura de mistério ao seu redor para ficar mais encantadora.

A Méri tornou-se uma espécie de estrela no bar. Para ela o Miúdo reservava os pastéis mais gordos e corados. Ela era a Méri Caçapa, devido à sua singular habilidade na sinuca; A Méri Boca-Nervosa, pois sempre tinha uma resposta cortante para qualquer gracinha; A Méri Tyson , porque certa vez agarrou um cara pelo colarinho; A Méri Modelo, por causa da altura, dos seios pontiagudos e do rosto marcado e perfeito. E para o Dani, garçom e sobrinho do Miúdo, era a Méri Bonita, quem dera a mãe dos seus filhos. E derramou escondido algumas lágrimas quando, após três meses de sumiço, seu coração lhe garantiu que ela nunca mais apareceria.

Foi-se. Virou puta, num cabaré ordinário. Achou o homem da sua vida que lhe impôs a condição de dona de casa. Entrou para uma igreja evangélica. Descobriu um boteco mais legal. Sabe-se lá. Muitas vezes, quando perguntado sobre ela, dizia com saudade: A Méri é que era mulher de verdade.

G




Escrito por G às 00h11
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