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A Jóia da Noite
Eu tinha descoberto o reino das gurias por acaso, num dos vários mergulhos que dei na baixa-noite porto-alegrense. Ficava escondido numa ruazinha obscura que dava para a avenida Farrapos, à margem do grande centro de prostituição da cidade, o coração noturno e maldito da cidade. Devido à localização e graças ao marketing oral (leia-se propaganda boca-a-boca), o reino das gurias tinha lá seu status, servindo como referência para demonstrar conhecimento da zona. Era um lugar até bonitinho, decorado com louvável intenção de bom gosto.
Sentei-me num lugar que me permitia observar a maioria das garotas, julgá-las como se estivesse num açougue. Logo vi que não eram grande coisa, rostos comuns em corpos imperfeitos, garotas que se via no ônibus todo dia. Música sertaneja de araque castigando meus ouvidos. Garçons me apontando os olhos como facas ao verem meu copo vazio. Já estava de saco cheio, prestes a ir embora, quando a vi. Usava uma saia preta que acabava dois palmos acima do joelho, um vestido de alças com elegância. Sua pele muito branca reluzia suavemente na penumbra do cabaré, os peitinhos duros como botões de rosa emergiam de um tórax forte. Seu rosto pequeno, levemente quadrado, de maçãs salientes remontava ao leste europeu.
Céus como era linda a indecisão verde-azulada dos seus olhos! Enxerguei uma coroa de jóias em torno dos cabelos negros. Estava sozinha em um canto. Era como se as outras meninas a isolassem, perturbadas com a sua beleza. Tudo o que os meus olhos queriam era se manter fixo nos dela. Ela era tão bonita que me faltava coragem para abordá-la, embora fosse uma prostituta, negociante do seu próprio corpo, coxas e peitos em marfim à venda, só o que eu precisava era abrir a carteira. Parecia que eu estava num bolinho pré-adolescente, babando pela guria mais bonita.
Ao perceber que tinha um admirador, seus olhos fixaram os meus, sem sorrir. Senti-me em laços verdes e azuis. Então deu um pequeno sorriso. Poderia muito bem ser apenas uma tática para atrair clientes, mesmo assim me coloquei à frente e acima de todos os homens. Ficamos algum tempo assim, meio que estudando um ao outro, o que não fazia muito sentido num put...
Quando resolvi chamá-la para minha mesa, um baixinho sentou-se ao lado dela. Censurei-me duramente pela hesitação. Talvez o baixinho fosse um velho cliente, e ia se apossar dela por um longo tempo. Rezei para que dessem o fora logo de uma vez. Sorri quando as mãos ávidas do baixinho falharam em tentar alcançar os botões de rosa. A dona não permitira, os olhos faiscando de raiva. Então se levantaram para dançar, mas ela não parecia nem um pouco afim. Os olhos dela me perseguiam sobre o ombro estreito do baixinho. Voltaram para a mesa e, após dez intermináveis minutos, o baixinho se despediu. Não havia tempo a perder. Chamei-a com um gesto nervoso para minha mesa. Ela sacudiu a cabeleira negra, me pregou no chão com um sorriso, e me senti como um garotinho quando se sentou do meu lado. Quis-lhe oferecer a bebida mais cara:
- Ah! Não precisa, querido, uma cervejinha está bom.
Era uma garota de poucas palavras e me disse que se chamava Taís, garantiu que se chamava Taís. Garota, italiana de Erechim, nenhuma gota de sangue polaco, sonhava em ser enfermeira, mas se deu conta de que os inegáveis atributos físicos renderam muita grana na baixa-noite. Fiz elogios sinceros e banais de sua beleza:
- Taís, como és bonita. Taís, que linda pele de mármore. Taís, como és durinha.
Ela deu um sorriso sacana, como se dissesse "me deixe adivinhar o teu pensamento", pediu minha mão, e, oh! glória!, levou-me até os seios de granito. Fiquei me sentindo o maior, pois ganhara de livre e espontânea vontade o que fora negado ao baixinho. Depois me deu um beijo no rosto e minhas defesas foram ao chão.
"Ok, branca garota eslava, seja qual for teu preço, hoje não voltas para casa de mãos abanando"
Ela me levou pela mão até um quarto escassamente mobiliado, cama, bidê, cadeira, nenhum quadro na parede, uma suíte barata na justa medida do cabaré modesto. Tiramos a roupa e, com uma tocha acesa nos lábios, ela me envolveu nos braços, e sua boca avançou sobre a minha como um animal feroz. Me senti lisonjeado. É mais fácil conseguir de uma prostituta a quase violação das leis da física chamada sexo anal do que um beijo na boca, pois elas guardam seus lábios com último reduto de dignidade. Calei a vozinha que sussurrava "estás chupando vários paus por tabela ao mesmo tempo" Dane-se, como dizer "na boca não" para aquela menina tão bonita que me dava seus peitos e lábios? Seria como chamá-la de imunda.
Ela estava faminta, e me devorou com um prato cheio da comida predileta. E me beijava, e me mordia, e me acariciava dizendo palavras doces. Parecia tragar minha alma pela boca e pelo sexo, querendo me trazer para o seu útero e depois me expelir num jorro de lágrimas felizes, depois me amamentar com um bebê e começar tudo de novo, e de novo e de novo.
Quando terminou, recostou-se no travesseiro e deitou minha cabeça nos seios nus, fazendo túneis em meus cabelos. Eu era sua criança, estava cansado, precisando de carinho. Passou-se um bom tempo sem que nenhuma palavra brotasse. Então eu falei:
- Foi bom, né Taís?
- Meu nome é Bruna respondeu com uma gota de raiva em cada palavra.
Ela garantiu que se chamava Bruna
Olhou para meu relógio de pulso em cima do bidê. Tinha se passado quase o dobro do tempo de um programa. Disse que precisava ir. Que vontade de ouvir uma canção bem triste, meu pau amolecendo à luz mortiça do seu olhar! Entrou para o banho e não me deixou acompanhá-la. Também negou uma carícia no seu traseiro grande e macio. Foi comigo até a rua, passos lentos, o nariz sempre em linha reta. Nos despedimos com um "tchau" que mal se pode ouvir.
Peguei um táxi em frente ao cabaré. O motorista perguntou se o lugar estava cheio e se eu tinha ficado com uma menina. Falei de uma menina robusta, pele alva, olhos coloridos e seios empinados como os de uma garotinha. Mal contendo o entusiasmo, o motorista disse conhecê-la, a Taís, a polacona, muito bonita e muito querida, nem era pra estar ali. E me aconselhou a frequentar a casa nas noites de quinta para sexta, as noites mágicas do reino das gurias. Respondi baixinho que nunca, mas nunca mais mesmo, eu colocaria os pés ali, apesar da casa ser bacana e Taís, uma princesa. Após um momento, ele falou num tom paternal:
- É melhor, guri. É melhor.
Segurei o choro até chegar em casa.
G
Escrito por G às 00h35
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