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BRASIL, Sul, PORTO ALEGRE, Homem, de 26 a 35 anos



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A Turma da Chama e o Poeta Bêbado

Dizem que Tomás, o mau poeta
Chega em casa bêbado
E vai dormir sem dizer nada
Por muitas razões
É um fraco. É um doente
Sem-vergonha. Perdedor
Nós, a Turma da Chama
Poetas ruins que também somos
Pensamos que Tomás
Apenas cansou-se da vida
Essa puta caríssima e fascinante
Cansou-se da avareza
Com que a musa lhe dá seu leite
Cansou-se de todos ignorarem
A florzinha no centro do terreno baldio
Cercada de mato e de lixo
Cansou-se de louvar sozinho
A beleza da menina gordinha e dentuça
Que passa em frente ao seu bar de coração
Oh, Tomás, o quanto te feriram
E ainda ferem sem querer!
A grama já não tem cheiro de rosas
O luar frio já não te aquece a alma
E nem sonhas mais com um banho de orvalho!
Nós, a Turma da Chama
Te faremos nosso membro honorário
Escreveremos teu nome num guardanapo
Colocaremos dentro de uma garrafa
E o primeiro de nós que for à praia
Irá jogá-la ao mar com toda a força
E de noite, mau poeta
Por que é de noite que tu sucumbes
Um pouco a cada dia
Oh, Tomás, nosso patrono e inspirador!

G



Escrito por G às 10h38
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A Turma da Chama

A "Turma da Chama" era uma sociedade informal de jovens poetas que se reuniam todos os sábados à noite em um boteco simpático e ligeiramente sujo, escondido nas entranhas do bairro Azenha. Chegavam por volta das 8 horas e ficavam até a paciência encher, declamando seus poemas uns para os outros; eram versos livres do pudor da ruindade, cheios de gírias e vocábulos semi-desconhecidos, verdadeiros jatos de emoção bruta, entremeados de discussões a respeito de tudo; política, música, economia, sexo, ódio, amor, amizade, os grandes mistérios da vida e os rumos da humanidade. Penetrávamos todas as questões, num misto de superficialidade e ardor juvenil. Estávamos todos na casa dos vinte anos, quando tudo ainda cheira a novidade. Desafiávamos Deus a explicar a bela m.... que o mundo se encontrava, nos levantávamos contra o governo, as multinacionais, a mídia careta, e não ligávamos para a ausência de contrapropostas. Como um de nós tinha fundado o "nem-aísmo",  segundo o qual, já que vamos para o cemitério e ainda não foi comprovado o além-túmulo, tudo era válido em sua falta de sentido sobretudo se reunir em um boteco para brincar de pensadores e rebeldes malditos, em meio à fumaça de cigarro e muito álcool.

Os habituais frequentadores do boteco, gente humilde, numa faixa etária superior à nossa, com preocupações bem distintas de jovens universitários, que nos viam como um simpático corpo estranho. Às vezes prestavam atenção nas m.... que a gente falava, com um misto de curiosidade e admiração.

Havia um homem que sempre chegava um pouco depois da gente, quando era possível, sentava perto de nós. Tinha um rosto muito avermelhado e pequenos olhos claros que brilhavam timidamente enquanto procurava nos escutar. Então começava a beber solitário uma dose atrás da outra, o efeito da bebida abrindo um sorriso de dentes amarelados, um sorriso trôpego, desengonçado, envergonhado de si mesmo. Depois levantava e ia embora.

De acordo com nosso espírito zombeteiro, passamos a questionar a masculinidade do coroa, especulando sobre qual de nós era o seu objeto de desejo. Mas, uma noite, enquanto procurávamos achar o caminho seguro entre Deus e a ciência, o homem se dirigiu até nós e pediu um minuto de atenção. Parecia uma criança dirigindo-se a um grupo de adultos. Sentimos que ele fizera um esforço enorme para tomar aquela atitude, e concedemos o tal minuto, mas tio, seja breve, que o cheiro de pinga está de lascar:

- Guris, faz tempo que eu venho cuidando vocês, com todo o respeito, né?  Com todo o respeito cuidando, cuidando. Eu... sou um perdedor, um saco de mijo e cocô. Mijo choco. Eu sou aquele que caiu num buraco sem fundo e não quer companhia. Então escutem a voz que vem do fundo do buraco. É rápido.

O homem já tinha capturado completamente a nossa atenção. Éramos sua pequena platéia , estávamos em suas mãos. Ele falou:

- Fujam de um casamento sem amor e um trabalho sem prazer. A maioria do pessoal até aguenta, mas não a gente. Senão...

E fez um gesto com ambas as mãos para si. E, se desse para espremer aquele sorriso sem graça, daria para encher um copo de lágrimas.

E foi embora devagarinho, deixando-nos com saudade do bafo de pinga.

Suas palavras nos atingiram como um tapa. Buscando informações a respeito do homem com o dono do bar ficamos sabendo que ele morava sozinho em uma bela casa de dois pisos ali perto, a maior das redondezas, e frequentava o bar há muito tempo. Era um homem muito reservado, porém uma vez deixou escapar qualquer coisa sobre ter pintado quadros na juventude, tipo "Mona Lisa", sabem?, e sobre uma mulher mais jovem que não valia nada, mas era linda de morrer.

A "Turma da Chama" aguardou pela volta do Tio, mas soubemos que ele escolhera outro dia e horário para beber. De certa forma, ele tinha virado uma figura mítica para nós, inspirando-nos longos debates sobre a felicidade, sua busca, natureza, peso, cor, altura e pelo menos dois poemas: "A cadela mais linda do mundo" e  "A voz no fundo do buraco", este último de minha autoria. Todos concordaram que "A voz no fundo do buraco" tinha algum valor literário. Então, após um árduo processo de lapidação, supervisionado por um competente professor de literatura, consegui publicá-lo em uma antologia de poetas amadores.

E, porque imaginamos que aquele seria o destino de Arturo Bandini, de John Fante, frustrado, bebum e com o pensamento voltado para Camila Lopez, resolvemos chamar nosso amigo de Tio Arturo, membro honorário da "Turma da Chama".

Nos dias de hoje, em que a "Turma do Chama" é só uma lembrança que arde gostosa e possivelmente o Tio Arturo já encontrou o descanso, eu mantenho uma coluna política de orientação esquerdista em um jornal de segunda linha e estou casado com uma baixinha branquela de pernas torneadas e temperamento explosivo. Ganho o bastante para comprar uns livros e Cd´s sem ter que abater da comida, e não ligo para a baixinha branquela que às vezes me chama de perdedor porque só troco de carro a cada cinco anos.

Sei que logo depois vai tentar se redimir dessas bobagens com um baby-doll preto e o meu prato de comida predileto. Sou feliz e não frequento botecos ligeiramente sujos. E tudo porque a voz no fundo do buraco até agora ressoa em meus ouvidos.

G



Escrito por G às 10h37
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Recordando Vanusa Spindler

De manhã cedo, antes de ir para a escola, o garoto sempre tomava café com seu pai, ouvindo o mesmo programa de rádio em que três senhores discutiam assuntos variados que raramente o interessavam. Mas, naquele dia eles receberam a mais nova capa da Playboy, cobrindo a moça de gentilezas e perguntas leves. Um deles até declamou-lhe um poema. Outro fez um comentário que impressionou o garoto: "Tem muita gente que fica hipnotizada na banca de revista por tua causa". Ele pergunta ao seu pai o que mulher terá de tão especial. A resposta é seca e racional: "Eles são um bando de velhos babando por uma guria bonita e gostosa que é igual a tantas outras gurias  bonitas e gostosas. Só isso." O garoto fingiu concordar, pois alguma coisa lhe dizia que os atributos de Vanusa Spindler iam muito além daquela explicação mal humorada. VANUSA SPINDLER, até o nome era gostoso de dizer.

Depois da escola, o garoto parou na banca de revistas mais próxima. E sofreu o primeiro grande abalo de sua recém inaugurada adolescência. A loura muito bronzeada, emergindo de um macacão de piloto de Fórmula 1 com seu imenso par de seios e sorriso infantil, pareceu agarrá-lo  pela garganta. Aqueles tios do rádio estavam cobertos de razão. O garoto investiu boa parte de sua mesada na revista. E, sozinho no seu quarto, ouvindo repetidas vezes "O Astronauta de Mármore, do Nenhum de Nós, admirou suas fotos uma a uma, lentamente, num ritual de degustação permeado de melancolia. A partir daquele momento, Vanusa Spindler tornou-se para ele uma entidade quase mística, o sonho maior. A coisa ia muito além do mero fascínio que uma loirona generosa provoca num guri de quinze anos. Era uma espécie de paixão fria, sem arroubos, em que o tesão era só mais um entre outros componentes. Até mesmo Esteio, uma pequena cidade nos arredores de Porto Alegre, terra natal de Vanusa Spindler, ganhou contornos míticos para o garoto. Era a "Cidade Spindler".

Meses depois, após submeter sua paixão platônica ao crivo da razão, decidiu que ela não tinha cabimento: Numa tarde ensolarada, nos fundos de casa, escutando "O Astronauta de Mármore" num radinho gravador, queimou a revista Playboy em algo chamado "Ritual Libertador". O garoto acreditava realizar um ato de pura poesia. Complicadinho, o garoto. Ele se tornou este homem um pouco menos complicado. E Vanusa Spindler continua carinhosamente guardada em sua memória, num lugar seco e arejado, enfeitado com flores. Espero que ela tenha aproveitado ao máximo seus dias de glória, multiplicado o capital da sua beleza e, sobretudo espero vê-la  em algum programa de TV do tipo "onde andará fulano?". O garotinho dentro de mim ficaria comovido.

G



Escrito por G às 10h36
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A Gorda

Seu nome era Beatriz, mas se apresentava na internet como "A Gorda" para afrontar os padrões de beleza vigentes. Tinha certeza que, dos três filhos de sua mãe, era a menos amada. Em primeiro lugar vinha o Tiago, que retribuía o afeto da mãe com tanto ardor que continuava morando com ela, apesar das duas faculdades. Depois vinha a bela Aline, quer dava continuidade à beleza da mãe, fazia bicos de modelo e por muito pouco não entrou na UFRGS. Por fim, Beatriz, com suas manias de poesia, arquitetura, história antiga, discos voadores, rock progressivo e uns namorados esquisitos, até um moreninho do PC do B, meu Deus. A Beatriz parece que fazia de propósito.
Por isso todos ficaram espantados quando aquele homem parou na frente de casa com seu carro importado, vindo buscar a Beatriz para jantar fora. AQUELE HOMEM era o genro suplicado pela mãe da Beatriz em orações, o príncipe em quem a irmã da Beatriz não acreditava, o ideal de realização do Tiago. Pois ele teve algum trabalho para conquistar a "Gorda" que o achava certinho demais, perfeitinho demais.
Agora, na internet, a Beatriz se apresenta como "Princesa di Azevedo" e criou uma comunidade chamada "Meu namorado é um Deus".

G



Escrito por G às 21h01
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Antonino

- Porque eu considero tudo quanto é alemão e italiano meu inimigo. Branquelos de merda! Eu nasci e vivi em Nova Bassano até os doze anos e me fodi muito, velho. Me fodi até na mão da minha mãe, tudo por causa do meu sangue negro. A velha devia pensar melhor antes de foder com um negrão, o escroto do meu pai, se não queria um filho mulato. Mulato não, negro. E não me chame de italiano por causa dos meus olhos verdes.

Éramos amigos a muito tempo, Antonino e eu. Já tinha escutado aquela conversa dezenas de vezes, e sempre que tentava esmiuçar o sentido das palavras "me fodi muito em Nova Bassano" ele desconversava. Resolvi perguntar sobre sua nova namorada, que eu ainda não conhecia, e a quem ele chamava de "alma gêmea". Ele deve tê-la escolhido de uma longa lista, porque era um rapaz muito bonito e de bom caráter. Se fosse mais alto poderia desfilar na passarela.

- Ah, ela continua bonita, gostosa, meiga, gentil, boa-praça, companheira, inteligente. Tu vai conhecer ela agora mesmo.

Uma garota vinha em nossa direção, com um saco de compras na mão esquerda. Era bonitinha e rechonchuda, cabelos e pele muito clara, a típica colona bem nutrida. Num tom de censura, voltei-me para ele e disse:

- Porra, Nino, agora eu não te entendi. Depois de tudo isso que tu falou.

Ele respondeu na hora:

- Cara, o que é que eu vou fazer? É o amor, cara, é o amor! Amora, cara! Love. Afeto. Coração.

Em sua testa contraída , e na dureza dos seus belos olhos eu podia ler com clareza: Tu é um babaca, cara! Um trouxa, cara!

G



Escrito por G às 21h57
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Contosco Menino-Moço

Poucas vezes na minha vida eu vira uma mulher tão gostosa, um caso raro de fartura e rigidez de coxas, peitos e nádegas. O problema é que tudo isso vinha precedido por uma bengala, o alarme rudimentar que avisa os cegos de qualquer obstáculo em seu percurso. Sentia-me tentado a devorá-la com os olhos de um jeito acintoso, deselegante, porque ela era muito boazuda, e além do mais não poderia reclamar. Porém seria nojento devorá-la com os olhos justamente porque os dela não funcionavam. E, se funcionassem, eu não me atreveria, com medo de escutar um merecido desaforo. Então me contentei com uma respeitosa olhada no seu grande e empinado traseiro, como faria com qualquer uma.

G



Escrito por G às 21h23
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Seu Hubert

Todos diziam que o Seu Hubert era um grande filho da puta. Era um velho de quase oitenta anos, alto e vigoroso, que se movia com passadas rápidas, sempre com um chapeuzinho colonial alemão. Tinha-se aposentado como um alto funcionário do governo estadual, era viúvo e os dois filhos moravam longe. Longe dele, segundo zelador do prédio do Seu Hubert. E a esposa morrera de desgosto, adivinhe por causa de quem. Seu Hubert não conseguia manter uma empregada por muito tempo, embora pagasse generosamente. Vivia arrumando encrenca com os vizinhos, demitira dois porteiros. Trocara socos com outro senhor de idade e até tentou remover o carteiro da zona. Até com os operários da obra ao lado ele quis briga "comedores de marmita"!

Mas, quando sua neta, a bela, alva e loura Magali, caiu de amores por um neguinho do subúrbio, e a família lançou uma vaia ensurdecedora, adivinhe quem, num dos raros momentos em que a família se reunia, desancou implacavelmente toda a alemoada? Quem declarou apoio incondicional à Magali e o "seu pretinho"? Quem, fazendo um gesto teatral, ofereceu o próprio apartamento aos dois? E avisou ao filho e à nora, de quem nunca gostou muito: ai de vocês se queimarem uma cruz em frente ao meu prédio!

Magali conteve o riso que iria espatifar o silêncio de chumbo. De fato, o Seu Hubert era um velho filho da puta.

G



Escrito por G às 23h34
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A Lagartixa

Toda a convicção da minha grandeza de alma foi sacudida por uma simples mijada: porque, vendo uma lagartixa tentando subir pelo interior da privada, não hesitei em direcionar sobre a pobrezinha toda a força do meu esguicho. Como eu não estivesse com muita vontade de mijar, o que diminui a duração e a potência do ato em si, e a lagartixa lutasse com toda a sua força, agitando freneticamente suas pernas e braços, acabou reconquistando seu direito à vida. Vendo-a disparar para trás da privada, quem sobe exausta e apavorada, perguntei-me como um homem se sentiria no caso de, andando sozinho pela rua, de repente uma clareira minúscula se abrisse entre as nuvens, e um jorro quente, poderoso e fedido o atingisse com toda a força, o mau cheiro invadindo suas narinas, a pressão do jato ferindo sua carne e ossos, a acidez corroendo até os seus cabelos. No caso de sobreviver, igualando-se à lagartixa, talvez ele achasse que Deus era um filho da puta sádico e mesquinho. Então decidi que até uma lagartixa fuleira merecia a compaixão de Deus.

G



Escrito por G às 15h49
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Tiozinho

Quando fui visitar o Tiozinho no Hospital de Clínicas, o que realmente varou meu coração não foi a visão do Tiozinho sentado numa cadeira, mal podendo falar, reduzido à metade do seu tamanho, a camisa aberta no peito revelando pele e ossos, mas o senhor no leito ao lado vendendo saúde comparado ao Tiozinho, mas quanta tristeza no seu olhar, enquanto via o Tiozinho cercado de parentes e amigos, numa redoma de barulho, afeto e calor, havia até uma bela de uma guria para fazê-lo sonhar um pouquinho, talvez fosse a filha do Seu Ildo, não, não, é só a mais nova candidata a nora, e aquele senhor tinha plena consciência de que, mesmo ficando ali um ano inteiro, receberia menos visitas do que o Tiozinho num fim de semana. E como, como se culpava por isso. 

G



Escrito por G às 19h50
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A Zona Negra

Os caras da minha rua pediram para olhar os CD's que eu trazia na mão. A reprovação estampava-se no rosto de cada um à medida que os CD's eram examinados. Podia-se notar o desprezo até na maneira como eles circulavam de mão em mão. Tive a certeza de que o meu gosto musical perturbava-os, como a exposição de uma coisa feia. O mais alto deles falou, balançando a cabeça:

- Olha só, um neguinho de vila curtindo esse rock barulhento de playboy...

- Porque tu não alisa o cabelo, afina o nariz e se veste todo de preto, ein?

Suas risadas eram como tapas na minha orelha, coroando uma argumentação poderosa e articulada. Esses caras deviam estudar Direito. Nem ao menos tentei comunicá-los de que o rock 'n roll é um neto mulatinho do lamento dos negros nas lavouras da América. Então fui até a loja de CD's usados da qual era um velho freguês e vendi minha coleção completa de Beatles, Led Zeppelin, Doors e os Stones da década de 70. O dono da loja, intrigado, perguntou sobre o motivo da venda:

- É que eu sou um garoto negro da periferia. Um neguinho de vila, sabe? Eu tenho que escutar rap e pagode.

Impressionado com o brilhantismo da minha colocação, o dono da loja colocou juntos, num lugar determinado, todos os CD's de rap, pagode, ou qualquer um que tivesse jeito de música dançante com um crioulo na capa. Chamou essa área de "Zona Negra". Mas, obviamente, não colocou nenhuma plaquinha.


G



Escrito por G às 13h29
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Simplesmente Amor

Era quase um ritual sagrado para aqueles três amigos reunir-se uma vez por semana, ao fim de tarde, no bar do Boni, para refrescar-se na companhia um do outro. A grande estrela do local era Priscila, a "Miss Garçonete", cuja beleza ainda seria descoberta pela mídia. Ela estava adorável naquela sexta-feira, cabelos soltos, pintura discreta, seios volumosos se derramando pelo decote. Depois que ela trouxe uma generosa porção de batatas-fritas, Virgílio comentou:

- Fico imaginando quantos corações essa mulher não partiu, quantas loucuras de amor não inspirou.

- Fico imaginando quanta gente ela não ferrou, isso sim. Ela sabe que é bonita desde que começou a andar – retrucou Juliano, que gostava do corpo dela na mesma medida que não ia com a sua cara.

- Seria impossível essa guria não saber que é linda – falou baixinho Marcelo, olhando para a rua.

Então uma idéia lhe ocorreu. Contariam a mais bela história de amor que conhecessem e da qual não haviam tomado parte, para evitar comparações. Juliano aprovara a idéia, mas fez questão de ressaltar que era coisa de veado. Virgílio, que embora cultivasse o estilo "boêmio intelectual", no fundo sonhava com uma igreja decorada em azul e branco, fez questão de começar:

- Eu tenho um conhecido por aí, o Machado, que é um artista plástico dos bons, um carinha preto e pobre que sei lá como estuda na Ulbra. Foi lá que ele conheceu a Beatriz, um caso meio raro de filhinha de papai bacana, uma loira até bonita.

Juliano sentiu-se na obrigação de interrompê-lo.

- Ah não cara, lá vem clichê. Garoto preto e pobre se apaixona por menina loira e rica. É a velha história de Cirilo e Maria Joaquina. No mínimo eles tiveram que enfrentar os pais dela, os amigos dela, os vizinhos dela, para viver seu amor.

Marcelo quase cuspiu a cerveja de tanto rir. Virgílio fingiu-se aborrecido, exigiu respeito e continuou:

- É aí que está a beleza desse conto romântico, velho. O Machado não um besta, sabe muito bem em que tipo de mundo ele vive, portanto tinha medo de que essa merda rolasse. Só que a família dela o acolheu com um filho! Ele se sentia melhor no meio daquela alemoada do que entre seus próprios familiares, que sempre o trataram como um bicho estranho, metido a artista. E tem um detalhe: a guria sofre de depressão, já esteve até internada numa clínica. Ela demorou um bom tempo para lhe revelar a doença, com medo de ser abandonada. E eu poderia começar um dos meus poemas com a resposta dele: "Eu seria doente se largasse uma pessoa que nem tu". A mãe dela foi de uma sabedoria milenar quando disse que o Machado era o melhor remédio para a filha dela. Pessoal, eles estão até noivos! Até o Juliano tem que admitir que uma dessas histórias faz o mundo parecer melhor.

- Não é uma história mirabolante, mas tem um conteúdo otimista muito bacana. O Cirilo se deu bem. Só que a minha é mais legal – disse Juliano. O Marcelo que gosta desse negócio de magia, espiritualismo, vai se amarrar. Eu tenho um velho amigo que, no começo deste ano, começou a flertar com uma guria pela internet, essa besteira de relacionamento virtual. O codinome dela era "Espaçosa", e seduziu o cara porque era divertida, inteligente e desbocada. Fazia mistério sobre sua aparência, pois dizia que o espaço virtual não deveria ser nenhum açougue. Mas dava a certeza de que não assustava ninguém. Os dois chegaram a amanhecer batendo papo no computador. Aí o cara teve a certeza absoluta que eles precisavam se conhecer melhor. Marcaram um encontro e, quando ele botou os olhos nela, véio, levou um dos maiores choques de sua vida. – Juliano fez de propósito uma pausa dramática – Meus caros, se eu acreditasse em Deus diria que é coisa dele. A "Espaçosa" foi o primeiro amor dele no colegial; era uma grande mulher do terceiro ano, uma pré-acadêmica que desprezava os gurizinhos do primeiro ano, onde ele penava com sua paixão não correspondida. Seu nome era Andréia. Usava o codinome "Espaçosa" porque era um mulherão de 1,80m, meio acima do peso, e com um rosto perfeito. Meu, até casada ela já foi. O cara por pouco não chorou.

Virgílio e Marcelo ficaram realmente impressionados. Juliano degustou.

- Puxa, isso é como ter um sonho bom, e acordar num sonho melhor ainda – comentou Virgílio. E eles estão bem?

- Estão bem, considerando que ela adora mandar, e ele não importa em ser mandado. Já ouvi até dizer que ela se aproveita do tamanho para cascudear ele. De qualquer forma, é uma bela história. Agora manda a tua Marcelo.

Ele riu daquela maneira própria dos tímidos, como se ao mesmo tempo estivesse pedindo desculpas. Deu um pigarro, tomou um gole de cerveja e começou:

- Eu ia contar essa para vocês , ainda que outro assunto estivesse em pauta. No Domingo passado, um cara foi assistir um filme na Casa de Cultura. Quando estava chegando à bilheteria, uma garota bonita, com uma expressão de ódio, passou correndo por ele. Logo entendeu o porquê. Há cinco minutos atrás tinham vendido o último ingresso para a bosta do filme. O cara saiu de lá puto da cara, pois não havia outro horário no mesmo dia. O cara então viu a guria olhando o cartaz do filme, como se aquilo a consolasse. O cara chegou perto dela e perguntou: "Tu também se azarou com o filme?" Ela respondeu: ""Pior. E o brabo é que eu vim de Sapucaia pra ver essa droga. Agora fiquei sem opção". E o cara respondeu: "Eu tenho uma opção. Sai comigo pra tomar uma cerveja". E a guria foi, cara. Ela foi.  

Então Marcelo ergueu os punhos no ar, como se estivesse ganho na loteria, ou passado no vestibular, ou conseguido o primeiro emprego, qualquer coisa maravilhosa capaz de virar pelo avesso a vida de alguém:

- Galera, o tal "cara" sou eu! EU, PORRA! Ficamos juntos até de noitinha. Ela voltou no dia seguinte, fomos para um motel legal, porque ela ainda por cima tem grana, e já estamos namorando!

Virgílio e Juliano fizeram uns instante de silêncio, respeitoso e reverente. Parecia-lhes quase milagroso o modo como o tímido Marcelo derrubara suas barreiras interiores. Eles sabiam o quanto ele penava no imenso deserto de sua vida amorosa. Seu rompante de ousadia foi digno de um Casanova. E, quando Marcelo o atribuiu ao seu guia espiritual, Juliano bateu na mesa e ergueu a voz:

- Guia espiritual uma ova, o mérito é só teu. És bom, velho, és bom... Um campeão! Agora tu vai esquecer de vez essa peituda abobadinha aqui do bar.

Uma conexão misteriosa uniu os três num coro pavoroso, quando Marcelo entoou:

Por isso uma força
Me leva a cantar
Por isso essa voz
Estranha no ar

E a garota bonita sorriu complacente, achando que o coro erguia para ela.

G



Escrito por G às 03h35
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A Méri

A Méri chegou no boteco do Miúdo vinda de qualquer lugar, tripulando um Chevette azul maltratado que nem o seu rosto bonito. Sentou-se quase escondida, pediu uma cerveja, depois outra, depois outra, e à medida que esvaziava as garrafas preenchia um caderninho ensebado.

Chegava sempre no fim da tarde, e levou uma semana para falar com alguém. Era o alvo das atenções por causa da altura, dos braços longos e fortes, recortados por veias azuis, e só não a chamaram de "traveco" por causa do rosto bonito demais.

Uma noite dirigiu-se à mesa de sinuca e desafiou os caras: daria cinco reais a quem a vencesse desobrigando-os de abrir a carteira em caso contrário. A ela só importava a glória. Venceu a todos sem muito esforço, um deles fez questão de oferecer-lhe uma carteira de cigarros, na boa, pois tivera de graça uma aula do seu passatempo preferido. A Méri aceitou o que considerava um troféu porque leu a pureza do seu olhar. Resmungou um "valeu" sem sorrir, a Méri pouco sorria, mas ao fazê-lo, era como se uma lâmpada acendesse de repente naquele espaço obscuro.

A partir de então a Méri se enturmou com o pessoal; a Méri bebia, fumava, jogava dominó, baralho, sinuca, dizia palavrões com finesse e de vez em quando até dava uma risada. A Méri detestava qualquer pergunta sobre o seu passado, fazia uma cara feia e endurecia o olhar, respondendo: "Sim, seu delegado", "Não, seu delegado", "Pode ser, dotô delegado". Talvez fosse a intenção dela criar uma aura de mistério ao seu redor para ficar mais encantadora.

A Méri tornou-se uma espécie de estrela no bar. Para ela o Miúdo reservava os pastéis mais gordos e corados. Ela era a Méri Caçapa, devido à sua singular habilidade na sinuca; A Méri Boca-Nervosa, pois sempre tinha uma resposta cortante para qualquer gracinha; A Méri Tyson , porque certa vez agarrou um cara pelo colarinho; A Méri Modelo, por causa da altura, dos seios pontiagudos e do rosto marcado e perfeito. E para o Dani, garçom e sobrinho do Miúdo, era a Méri Bonita, quem dera a mãe dos seus filhos. E derramou escondido algumas lágrimas quando, após três meses de sumiço, seu coração lhe garantiu que ela nunca mais apareceria.

Foi-se. Virou puta, num cabaré ordinário. Achou o homem da sua vida que lhe impôs a condição de dona de casa. Entrou para uma igreja evangélica. Descobriu um boteco mais legal. Sabe-se lá. Muitas vezes, quando perguntado sobre ela, dizia com saudade: A Méri é que era mulher de verdade.

G




Escrito por G às 00h11
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A Jóia da Noite

Eu tinha descoberto o reino das gurias por acaso, num dos vários mergulhos que dei na baixa-noite porto-alegrense. Ficava escondido numa ruazinha obscura que dava para a avenida Farrapos, à margem do grande centro de prostituição da cidade, o coração noturno e maldito da cidade. Devido à localização e graças ao marketing oral (leia-se propaganda boca-a-boca), o reino das gurias tinha lá seu status, servindo como referência para demonstrar conhecimento da zona. Era um lugar até bonitinho, decorado com louvável intenção de bom gosto.

Sentei-me num lugar que me permitia observar a maioria das garotas, julgá-las como se estivesse num açougue. Logo vi que não eram grande coisa, rostos comuns em corpos imperfeitos, garotas que se via no ônibus todo dia. Música sertaneja de araque castigando meus ouvidos. Garçons me apontando os olhos como facas ao verem meu copo vazio. Já estava de saco cheio, prestes a ir embora, quando a vi. Usava uma saia preta que acabava dois palmos acima do joelho, um vestido de alças com elegância. Sua pele muito branca reluzia suavemente na penumbra do cabaré, os peitinhos duros como botões de rosa emergiam de um tórax forte. Seu rosto pequeno, levemente quadrado, de maçãs salientes remontava ao leste europeu.

Céus como era linda a indecisão verde-azulada dos seus olhos! Enxerguei uma coroa de jóias em torno dos cabelos negros. Estava sozinha em um canto. Era como se as outras meninas a isolassem, perturbadas com a sua beleza. Tudo o que os meus olhos queriam era se manter fixo nos dela. Ela era tão bonita que me faltava coragem para abordá-la, embora fosse uma prostituta, negociante do seu próprio corpo, coxas e peitos em marfim à venda, só o que eu precisava era abrir a carteira. Parecia que eu estava num bolinho pré-adolescente, babando pela guria mais bonita.

Ao perceber que tinha um admirador, seus olhos fixaram os meus, sem sorrir. Senti-me em laços verdes e azuis. Então deu um pequeno sorriso. Poderia muito bem ser apenas uma tática para atrair clientes, mesmo assim me coloquei à frente e acima de todos os homens. Ficamos algum tempo assim, meio que estudando um ao outro, o que não fazia muito sentido num put...

Quando resolvi chamá-la para minha mesa, um baixinho sentou-se ao lado dela. Censurei-me duramente pela hesitação. Talvez o baixinho fosse um velho cliente, e ia se apossar dela por um longo tempo. Rezei para que dessem o fora logo de uma vez. Sorri quando as mãos ávidas do baixinho falharam em tentar alcançar os botões de rosa. A dona não permitira, os olhos faiscando de raiva. Então se levantaram para dançar, mas ela não parecia nem um pouco afim. Os olhos dela me perseguiam sobre o ombro estreito do baixinho. Voltaram para a mesa e, após dez intermináveis minutos, o baixinho se despediu. Não havia tempo a perder. Chamei-a com um gesto nervoso para minha mesa. Ela sacudiu a cabeleira negra, me pregou no chão com um sorriso, e me senti como um garotinho quando se sentou do meu lado. Quis-lhe oferecer a bebida mais cara:

- Ah! Não precisa, querido, uma cervejinha está bom.

Era uma garota de poucas palavras e me disse que se chamava Taís, garantiu que se chamava Taís. Garota, italiana de Erechim, nenhuma gota de sangue polaco, sonhava em ser enfermeira, mas se deu conta de que os inegáveis atributos físicos renderam muita grana na baixa-noite. Fiz elogios sinceros e banais de sua beleza:

- Taís, como és bonita. Taís, que linda pele de mármore. Taís, como és durinha.

Ela deu um sorriso sacana, como se dissesse "me deixe adivinhar o teu pensamento", pediu minha mão, e, oh! glória!, levou-me até os seios de granito. Fiquei me sentindo o maior, pois ganhara de livre e espontânea vontade o que fora negado ao baixinho. Depois me deu um beijo no rosto e minhas defesas foram ao chão.

"Ok, branca garota eslava, seja qual for teu preço, hoje não voltas para casa de mãos abanando"

Ela me levou pela mão até um quarto escassamente mobiliado, cama, bidê, cadeira, nenhum quadro na parede, uma suíte barata na justa medida do cabaré modesto. Tiramos a roupa e, com uma tocha acesa nos lábios, ela me envolveu nos braços, e sua boca avançou sobre a minha como um animal feroz. Me senti lisonjeado. É mais fácil conseguir de uma prostituta a quase violação das leis da física chamada sexo anal do que um beijo na boca, pois elas guardam seus lábios com último reduto de dignidade. Calei a vozinha que sussurrava "estás chupando vários paus por tabela ao mesmo tempo" Dane-se, como dizer "na boca não" para aquela menina tão bonita que me dava seus peitos e lábios? Seria como chamá-la de imunda.

Ela estava faminta, e me devorou com um prato cheio da comida predileta. E me beijava, e me mordia, e me acariciava dizendo palavras doces. Parecia tragar minha alma pela boca e pelo sexo, querendo me trazer para o seu útero e depois me expelir num jorro de lágrimas felizes, depois me amamentar com um bebê e começar tudo de novo, e de novo e de novo.

Quando terminou, recostou-se no travesseiro e deitou minha cabeça nos seios nus, fazendo túneis em meus cabelos. Eu era sua criança, estava cansado, precisando de carinho. Passou-se um bom tempo sem que nenhuma palavra brotasse. Então eu falei:

- Foi bom, né Taís?

- Meu nome é Bruna respondeu com uma gota de raiva em cada palavra.

Ela garantiu que se chamava Bruna

Olhou para meu relógio de pulso em cima do bidê. Tinha se passado quase o dobro do tempo de um programa. Disse que precisava ir. Que vontade de ouvir uma canção bem triste, meu pau amolecendo à luz mortiça do seu olhar! Entrou para o banho e não me deixou acompanhá-la. Também negou uma carícia no seu traseiro grande e macio. Foi comigo até a rua, passos lentos, o nariz sempre em linha reta. Nos despedimos com um "tchau" que mal se pode ouvir.

Peguei um táxi em frente ao cabaré. O motorista perguntou se o lugar estava cheio e se eu tinha ficado com uma menina. Falei de uma menina robusta, pele alva, olhos coloridos e seios empinados como os de uma garotinha. Mal contendo o entusiasmo, o motorista disse conhecê-la, a Taís, a polacona, muito bonita e muito querida, nem era pra estar ali. E me aconselhou a frequentar a casa nas noites de quinta para sexta, as noites mágicas do reino das gurias. Respondi baixinho que nunca, mas nunca mais mesmo, eu colocaria os pés ali, apesar da casa ser bacana e Taís, uma princesa. Após um momento, ele falou num tom paternal:

- É melhor, guri. É melhor.

Segurei o choro até chegar em casa.

G



Escrito por G às 00h35
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